Fado

O Fado.
Tenho muito pra falar sobre o que representa o Fado para mim.
Algo que sempre fez parte da minha vida, como se fizesse parte da vida de todos. Para mim era algo comum, como o ar, como a luz, era cotidiano. Mãe fadista, madrinha fadista, padrinho fadista e poeta. Era tão normal para mim que não me dava conta de sua importância.
Nasci nesse meio, cresci entre artistas. Tive o privilégio de ver na casa de meu padrinho diversos artistas que vinham em suas festas, e outros que vieram para temporadas na Adega Lisboa Antiga, quando minha mãe era uma das proprietárias. Estrelas como Maria da Fé, Maria Armanda, Maria Valejo, Ada de Castro, Tony de Matos, Beatriz da Conceição, Raul Solnado, entre outros, além dos que aqui vivem ou viveram, como Mário Rocha, Antonio Campos, Sebastião Robalinho, Maria de Lourdes, Conceição de Freitas, e mais outros tantos e tantos que me perderia a escrever o nome de todos. Além claro de minha mãe, Adélia Pedrosa, de minha madrinha Terezinha Alves e de meu padrinho, Joaquim Pimentel. Não conheci Amália, infelizmente, mas ela me conheceu, por foto, quando minha mãe e meu padrinho estiveram em sua casa. Disse que eu era muito "gaiata". Que honra! Uma pena não tê-la conhecido pessoalmente.
Fui muitas vezes às casas de Fado com minha mãe, e o momento que eu mais me emocionava, era quando os fadistas se reuniam, um em cada canto do palco, à meia-luz, sem microfone, e começava o Fado Menor, com quadras soltas - de arrepiar a alma.
Vinham muitos fadistas e guitarristas de Portugal fazer temporadas aqui. E os artistas daqui não paravam, tinham muitos shows, sempre, além de participarem com frequência em programas de rádio como Julio Pereira, Abilio Herlander, Irene Coelho e Joaquim Pimentel, entre outros, e na TV, Caravela da Saudade, de meu avô Alberto Maria Andrade, Todos Cantam sua Terra, além dos brasileiros Flavio Cavalcanti, Hebe, Mulheres, Bolinha, Baile da Saudade, e tantos, tantos outros. O espaço era aberto à cultura portuguesa, ao fado, e o público amava.
E assim, nesse meio rico de cultura e sentimentos, fui crescendo.
Com o tempo, mais exatamente de uns 15 anos pra cá, vi lamentavelmente, dia-a-dia tudo ir desaparecendo. Casas de fado fechando, programas de rádio e tv acabando, os shows de fado sendo substituidos por grupos folclóricos e até mesmo por samba, pagode, música sertaneja, árabe, tudo, menos fado.
Eu não podia deixar que meu mundo, o mundo que eu sempre vivi, acabasse assim, sem fazer nada. Mas o que eu podia fazer? Bem, não posso fazer muito, infelizmente, não tenho o poder em minhas mãos. Mas o pouco que posso faço, de todas as maneiras possíveis, de todas as formas que se me apresentem.
Alguns podem achar que quero só aparecer, os que não me conhecem, outros que estou legislando em causa própria, por causa de minha mãe, o que não seria absurdo, mas quem me conhece sabe que não sou assim. Faço o que faço, que é pouco, muito pouco, de coração, com o mais profundo sentimento de amor e gratidão por tudo que o Fado deu a minha mãe e a mim. Me alimentou, me educou, me agasalhou. Me criou. E o mínimo que posso fazer é ser grata.
Recentemente, além dos podcasts e blogs, criei junto com o jornalista Oliveira Nunes, a Web Rádio Portugal, com programação 99% portuguesa, tendo esse 1% de programação brasileira, atendendo a pedidos dos próprios portugueses, porque o brasileiro, quando conhece, quando o deixam conhecer, adora o fado.
Quero ver o Fado de volta ao Brasil, como merece. Quero que nossos artistas emigrantes que tanto lutaram e ainda lutam, sejam reconhecidos aqui no Brasil, e principalmente em sua Pátria.
Já que não canto, como minha mãe, escrevo e falo como meu avô.
Essa é a minha luta. Quem quiser e quem puder que se junte a mim. Juntos podemos fazer muito.



   

 


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